quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Não Existem Pais Perfeitos, Não Existem Filhos Perfeitos



O que é ser mãe? O que é ser pai? Guiar, amparar, ensinar... A criança vai crescendo e dizemos os primeiros “nãos”, somos testados... Passamos nosso amor, nosso carinho, olhares, momentos... Por que seria diferente o processo numa adoção? E mais ainda, por que seria diferente o processo em uma adoção tardia?


Acho a adoção tardia maravilhosa e emocionante, porque são dois lados conscientes do passado e do presente... Dois lados sonhando com um futuro juntos. Meus irmãos, tirando nosso caçula, sabiam que seriam adotados, desejavam uma família e assim começou o “namoro”... É um processo de conquista.


Será que todos os pais que buscam adoção sabem namorar? Por quais motivos são levados a procurar adoção? Esterilidade? Missão? Caridade? Que peso a criança irá carregar em cima das expectativas dos pais adotivos? A sociedade idealiza uma família perfeita, mas os conflitos existem, e se acontecem entre pais e filhos biológicos, porque não acontecerá entre os adotivos? Existem muitas devoluções, muitas, justamente por esse pensamento... Nos momentos de conflito a primeira coisa que vem na cabeça do casal é que a criança não é filho biológico. Gente! Como pode uma coisa dessas? É muita alienação!


Namorar é olhar nos olhos, é dar carinho, passar momentos juntos, escutar, dividir experiências... A família tem que estar disposta a passar por todo esse processo mágico na adoção. Nós já passamos por isso, não tem distinção dentro da nossa casa... As pessoas de fora que gostam de separar as coisas... Eu sinto isso, as pessoas gostam de lembrar que a adoção existe aqui dentro e que eles são vitimas. Hoje eles são vítimas? Não, hoje eles têm uma família, somos uma linda família que se ama, que tem brigas e dificuldades como todas as famílias, mas não porque existe a adoção, mas porque somos uma família de verdade. Aí começa o preconceito, as comparações, as discriminações... Quer dizer que se meus pais repreendem mais um dos filhos e esse filho for adotivo, estão fazendo discriminação? E se o filho que estiver tendo problemas com conflitos for um dos biológicos, as pessoas vão notar da mesma forma? Não. Então, onde está o preconceito?


Eu como filha biológica não tenho problemas psicológicos? Não tenho conflitos com meus pais? Não tenho inseguranças, incertezas, bloqueios? Posso até ser menos resolvida que um filho adotivo. Quando as pessoas vão entender, como o ser humano é complexo, como não existe regra? Cada pessoa reage de uma forma com suas experiências de vida. Quais são os meus modelos? Quais são os modelos dos meus irmãos?


Segue um trecho de um artigo do psicólogo Fernando Freire, sobre esse assunto:

Durante muito tempo, os pais adotivos buscaram segurança na adoção de recém-nascidos, aceitavam, sofridos e relutantes, o fato biológico da criança ter nascido de outros pais, mas queriam assumir desde os primeiros dias os seus cuidados, evitando qualquer contaminação, qualquer outra influência que não a sua, havendo mesmo o desejo e a tentativa de negar, esquecer o fato biológico do “outro” nascimento.


Em certa medida, a felicidade da criança seria decorrente do meio equilibrado, estável, em que ela foi inserida e cresceu, os seus fracassos poderiam eventualmente ser atribuídos à sua herança biológica. Hoje, conquista espaço uma nova sensibilidade, que reconhece o valor, os limites e as potencialidades da herança biológica, e a importância do meio no desenvolvimento de todas as crianças, sejam elas filhos biológicos e adotivos. E aqui lembramos que, o que se discute numa adoção é exatamente essa condição cultural afetiva social de uma criança ser reconhecida como filho por seus pais, e de reconhecer naqueles adultos os seus pais. Nas adoções que precisamos construir, o meio adquire imensa importância, pois ele precisará aceitar aquilo que é diferente do habitual, aquilo que ameaça, aquilo que desafia, falamos da construção das adoções necessárias daquelas crianças e adolescentes ainda hoje esquecidos em instituições, privados do direito fundamental à convivência familiar e comunitária. Como em todas as culturas, precisamos irrigar terrenos por vezes áridos, precisamos torná-los sensíveis e receptivos, precisamos arejar, precisamos semear, na adoção, precisamos, sempre, lançar sementes de humanidade, sementes de amor, fé e esperança.


Acredito que quando essas compara ções acabarem, entre biológicos e adotivos, quando os pais não criarem fantasias sobre o que é uma família, não haverá mais devoluções. O processo de adoção também deve ser rígido, a equipe de profissionais deve notar o que está por trás do desejo desses pais em fazerem a adoção.


Como é o seu amor? É ilustrativo o que diz Antonio Vieira: “O amor fino não busca causa, nem fruto. Se amo porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e o amor fino não há de ter porque, nem para que. Se amo, porque me amam, é obrigação; faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido, quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino”.

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